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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A História não é uma disciplina estruturante?

"No Programa do XIX Governo Constitucional só surgem como saberes estruturantes a Língua Portuguesa e a Matemática. A História está ausente, bem como todas as outras áreas científicas e disciplinares que fazem actualmente parte dos currículos nacionais.

Também nesse Programa do Governo se diz que há o objectivo de "reduzir a dispersão curricular do 3.º ciclo". No entanto, não se explica como vai ser feita essa redução e nem se diz o que se entende por "dispersão curricular". Múltiplas notícias surgidas em órgãos de informação referem explicitamente a fusão da História e da Geografia, reestruturação curricular que relegaria a disciplina para um lugar ainda mais secundário do que aquele que, infelizmente, já tem. A História pode vir a tornar-se um saber descartável se for relegada para um lugar secundário, se ficar sujeita ao arbítrio das direcções das escolas, se não estiver contemplada num currículo nacional obrigatório.

As reformas dos Ensinos Básico e Secundário, Politécnico e Universitário concretizadas em Portugal nas últimas décadas já contribuíram para a diminuição do peso quantitativo e qualitativo da historiografia nos currículos escolares - da História, da Arqueologia, da História da Arte e das tecnologias delas derivadas. No entanto, a sua natureza estruturante e de carácter extensivo, as múltiplas correlações com a realidade actual pressupõem e justificam quer uma formação particularmente exigente dos professores, quer um contacto regular dos estudantes com a área de saber em causa. A disciplina de História pode, assim, contribuir para a promoção de competências gerais, transversais e específicas, para combater a hegemonia da cultura de massas e do absentismo cívico, para a consolidação de uma consciência social aberta, democrática e participativa. Mau grado o suposto acesso universal à informação, a escola e, nesta, a disciplina de História continua a desempenhar um papel essencial na aquisição de capacidades de rastreio, selecção e interpretação de dados, experiências de vida e memórias. Porque trabalha com a multiplicidade das facetas das sociedades humanas no tempo e no espaço, a História facilita o contacto com instrumentos de análise que potenciam o combate às assimetrias socioculturais, que permitem uma efectiva capacidade individual de escolha.

A História é fundamental para contextualizar fenómenos complexos, viabilizando posturas menos alienantes face às problemáticas da multiculturalidade e múltiplas identidades, treinando-nos para lidar com as diferenças e as semelhanças, as mudanças e as permanências, a cooperação e a conflitualidade, as situações de crise ou estagnação e de progresso. Saber História é pois saber interpretar e analisar o passado, o que pressupõe, desde logo, capacidade de escolha, capacidade crítica para analisar a informação disponível. E essa capacidade adquire-se no confronto com os vestígios do passado (as fontes), percebendo que aquele é tecido de uma enorme variedade de perspectivas. A História, através das suas ferramentas de análise, possui a capacidade de destruir ideias feitas e, assim, levar a repensar o presente, contribuindo para o desenvolvimento da Humanidade.

O conhecimento histórico, tal como todas as outras áreas do conhecimento, está em constante mudança. Esta consciência e a capacidade de adaptação a essa realidade é uma das valências essenciais da História. Numa sociedade que acumula cada vez mais informação e a disponibiliza a todos, é fundamental que exista uma disciplina que saiba o que fazer com ela. Não se percebe pois como é que uma disciplina com as características aqui realçadas não seja "estruturante"."

por RAQUEL P. HENRIQUES (PRES. DA ASSOCIAÇÃO DE PROFESSORES DE HISTÓRIA) e MIGUEL BARROS (MEMBRO DA DIRECÇÃO) - DIÁRIO DE NOTÍCIAS - 10/11/2011

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