Número total de visualizações de página

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Da mistoforia ao subsídio de alojamento: a História que não interessa que o povo saiba

Quando penso na actualidade política nacional acabo sempre por fazer comparações com outras realidades históricas, tanto diacrónicas como sincrónicas. Tenho cada vez mais a noção que este meu "defeito profissional" enfurece muito os nossos actuais políticos, ao ponto de considerarem a História como um saber não estruturante. Eu compreendo o tipo de cidadãos que eles querem deformar...
Em primeiro lugar, devo admitir que quando, não raras vezes,  fico incrédula com o ponto a que este país chegou, ajuda-me sempre pensar que, como dizia Winston Churchill: "It has been said that democracy is the worst form of government except all the others that have been tried". E, de facto, ao longo da História da Humanidade só se viveu em democracia na polis ateniense no século V a.C. e em certos países ocidentais a partir do século XIX, quando os regimes liberais se foram aperfeiçoando em democracias. Temos aqui um motivo de orgulho, isso é inquestionável, tanto mais por sabermos aquilo que na actualidade ainda ocorre em tantos países do mundo.
Foi na Atenas de Péricles que se instituiu a democracia, diferente das actuais, por ser directa e muito mais limitada, mas que transportou em si a semente que tantos séculos mais tarde iria voltar a florir. Para procurar assegurar a participação de todos os cidadãos na Eclésia, assembleia de todos os cidadãos, foi instituída a mistoforia. Esta era aquilo que actualmente poderíamos considerar uma ajuda de custo para os cidadãos atenienses dos campos em redor de Atenas que perdiam um dia de trabalho com a sua participação,  mas não pode ser considerada nunca um salário. Os atenienses consideravam uma honra participar no governo da sua polis, através de cargos que, na sua maioria, eram sorteados e de curta duração. Nós percebemos bem o que é que isto queria evitar...
No século XIX as democracias ocidentais instituíram os salários para os políticos. E, ao contrário daquilo que a nossa mente saturada das aldrabices do belo político português poderia pensar, esta medida foi uma das bases da democracia, pois permitiu que indivíduos que viviam do seu trabalho pudessem concorrer a cargos políticos e ter um meio de subsistência durante o cumprimento do seu mandato. No fundo aproximou o povo do regime democrático, não só como eleitor, mas também como eleito.
Com o passar do tempo esta nobre medida foi completamente distorcida. Por isso, no dia em que o Ministro da Administração Interna e o Secretário de Estado das Comunidades abdicaram, com uma quase birra, daquilo que consideravam um direito inalienável, seria bom que alguém lhes falasse sobre a honra dos cidadãos atenienses e sobre os sacrifícios dos homens e das mulheres que corajosamente ergueram as democracias contemporâneas. Mas parece que isso agora já não é estruturante, o que é fundamental é aprender e praticar a arte de roubar descaradamente, fazendo parecer ao povo que até lhe estão a fazer um grande favor. Que se calem os historiadores.

2 comentários:

  1. sobre este texto e sobre a "história" gostava de partilhar uma imagem e texto de CAlvin & Hobbes (sim o da B.D.). o meu mail é jisa1974@gmail.com.
    tenho a imagem (acho eu) na tasca -vulgo, blog- mas não a encontrei para colocar aqui o link.
    obrigado

    ResponderEliminar
  2. O meu mail já está no blog (canto superior direito). Fico à espera :)

    ResponderEliminar

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.