Número total de visualizações de página

domingo, 26 de junho de 2011

Do ridículo das cartas de amor e de morte

Já raramente escrevo a alguém, poucas são as pessoas que recebem notícias minhas, a quem digo onde estou, como estou, se mudei de trabalho ou de máscara...Mas hoje o azul escuro que paira no céu, magistralmente iluminado pela magna centelha lunar, fez nascer em mim um desejo de vigília. Só ela faria justiça a esta noite sinistramente bela. Pensei: Não passa de hoje!

Por isso, abandonei-me nesta fresta escavada entre a noite e a madrugada, neste quarto que se revela cada vez mais um refúgio e resolvi escrever-te. Vai ser assim, até que o silêncio primordial da noite morra dentro de mim...Ou até que a luz se espalhe sobre esta cidade, obrigando-me ao regresso a este simulacro de vida, acordando-me de novo para a lentidão dos gestos repetidos.

Deambulo numa floresta onde a terra é rasgada a todo o momento por memórias que doem, latejam e marcam. Vivo da penumbra dos crepúsculos e da escuridão total da noite, de mitologias e de lendas...procuro isolar-me do mundo e fugir da dor. No entanto, seria inútil tentar explicar as razões da minha angústia, no fundo nada a justifica, embora ultimamente a minha vida seja um barco à deriva, tentando a todo o custo adiar o momento do naufrágio.

Nos confins do meu ser surge, então, um desejo de redenção, uma saudade antiga, dourada pelo tempo mas encrustada de mágoas. Como uma refinada herança do meu passado, um testemunho eloquente da minha anémica sina. Nesta amálgama compósita de sentimentos encontro algo de totalmente inesperado e revelador, a ele me entrego, como ao último laivo de escuridão que antecede o amanhecer.

Mas por agora serei apenas música perdida no tempo, sempre tão constante e envolvente, sempre tão incontida mas tão plácida:

 
“So much nostalgia
So, so much loneliness
Poor soul how you are so fiercely cold!”

As asas negras de um corvo sobrevoam o meu coração, trazendo memórias que acompanhar-me-ão até às cancelas da morte.
Até no último momento os meus olhos as vão revelar.
Neles sempre trouxe o fio da saudade.
Saudade que aqui deixo.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.