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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Não é fácil falar da morte

Não é fácil falar da morte. É mais fácil falar da vida. É mais fácil dizer que há cerca de trinta anos duas pessoas encontraram-se. Ela, rapariga da província a estudar em Lisboa, ele, homem separado mas não divorciado a trabalhar na capital. Não foi fácil fazer com que esse encontro fosse o encontro de uma vida, enfrentar os preconceitos de uma família tradicionalista, as portas que se fechavam e as caras que se viravam. Não foi fácil aceitar que entre essas caras estivessem os pais dessa rapariga.

Mas foi tão fácil não virar a cara a esse sentimento tão forte, a esse amor que de tão seguro parecia ter nascido quase pleno. Foi tão fácil partilhar uma casa e as emoções dos dias.

Não foi fácil esperar anos por um divórcio litigioso. Não foi fácil esperar por um pedaço de papel que poderia acabar com o ostracismo. Não foi fácil deixar passar o tempo. Mas o tempo passou. O pedaço de papel chegou e outro foi assinado outorgando o reconhecimento social e a bênção familiar. Uma criança nasceu.

Hoje uma dessas pessoas morreu. Não foi fácil atender o telefone e ouvir: “Acabei de ficar viúva.” Viúva. Como se no final deste amor fosse importante afirmar a legalidade que ele não teve no início. Não foi fácil acabar com o braço de ferro e aceitar a vitória do cancro. Não é fácil falar da morte.

Mas é fácil reconhecer que naquela família, na minha família, esta união foi a única que cumpriu com inteireza o voto institucionalizado: “Até que a morte nos separe”.

Não foi fácil escrever isto.

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