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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A Missiva do Adeus - Derivações do "Luminoso Afogado"

A noite arrasta-se iluminada pelo queimar das velas e neste quarto, povoado de mortes, existem mais murmúrios do que em qualquer outro lugar. Aproveito o tempo que me resta para revisitar os crepúsculos invernosos onde durante toda a minha vida me refugiei. Estou cansada do tempo que apenas finge não passar e devido ao qual nada se repetirá, nem a tua sombria vida, nem a serenidade da minha morte, que se espelha no meu rosto de modo indubitável. Debruçada sobre o sangue inerte, que outrora sulcava as minhas veias, sinto que atravesso uma floresta que me conduz para o local mais escuro da alma, onde finalmente serei coroada de paz.

Não sei se vislumbrei outros sentimentos, outras emoções, numa outra vida que não consigo recordar ou que teimo em enterrar debaixo das lajes da catedral da minha dor. Ignoro se fui feliz, apenas recordo um murmúrio a suplicar o meu regresso, mas sempre que ensaio a fuga uma fera estremece dentro de mim e origina torrentes de lágrimas, pétalas caídas deste jardim triste...


Mas hoje, as cadências de soluços dão lugar a palavras que adiam por instantes o momento da derrocada. De outro modo jamais te escreveria. Se gritar poderás ouvir-me e lembrar-te-ás de mim nesse instante e eu, apesar do delírio, sentirei a tua mão na minha fronte. Durante breves instantes o meu frágil coração de defunta pressentirá o teu corpo e serás o cúmplice ausente da minha morte, será tua a mão que enterrará a lâmina gélida do punhal.

Quase amanhece e a névoa da manhã pesa como uma mortalha de mármore. Permaneço junto a ela a ouvir os roucos brados do vento que embala o meu esquife negro: “A morte tem vida, tem forma de gente e vagueia entre nós...” Nunca mais regressarei e ninguém virá reclamar a desolação que palpita na minha martirizada alma.

Todas as mortes acabam por se apagar da memória dos vivos. É para lá dos olhos fechados dos mortos que o mundo acorda todas as manhãs...

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